domingo, 4 de outubro de 2009

BELEZA PURA

Outro dia escutei um papo entre dois ocupantes de uma sala em Tegucigalpa. Um deles estava aconselhando a um presidente deposto. Ouvi do conselheiro o seguinte: por que você não pede logo esse asilo? O companheiro respondeu - sei não, estou meio confuso, estou esperando o interino baixar a guarda para dar o golpe certeiro. O conselheiro então mostrou pra ele o caminho das pedras: olha aqui companheiro, lá na Ilha de Vera Cruz a Democracia é plena. O companheiro que não entende nada de Democracia, perguntou: como plena? O conselheiro então explicou - é o seguinte: lá você pode fazer o que quiser que não dar em nada. Você pode ficar um tempinho como asilado político e depois você pede para naturalizar-se e passa a gozar de todos os direitos como se fosse nato da terrinha. Aí o companheiro falou: boa idéia. Se é assim diga ao povo que eu vou. Mas ainda tinha dúvida de alguma coisa, como por exemplo, aquele papo de que lá se podia fazer de tudo que não dava em nada. Aí o conselheiro trocou em miúdos - É assim, se você comete um crime como aquele apelidado de "colarinho branco" e a promotoria quer te ferrar, logo a defensoria argumenta que não foi bem assim que o fato aconteceu... e o processo é arquivado por insuficiência de prova. Aí o companheiro se animou e falou, ah é assim? Então é melhor que bom.

Mas tem uma coisinha que eu esqueci de explicar, completou o conselheiro. Que coisinha? Perguntou. Então o conselheiro detalhou: pra você conseguir tudo isso que eu te falei, primeiro você tem que ter cacife. O que é que é isso? Perguntou o companheiro. É mais ou menos o seguinte: tem que ter dinheiro em primeiro lugar, não ter posição definida, aí veio a dúvida: o que é não ter posição definida? É ser como se diz por lá: maria vai com as outras, ou seja, esquecer esse negócio de hombridade e conseguir um bom reduto eleitoral... aí o companheiro perguntou - se eu estou chegando há pouco... como é que eu vou conseguir um bom reduto eleitoral? ? Se você já tem o dinheiro, o resto é mole. Ah, sim, não esquecendo... é muito importante que você faça parte da turma de sustentação. O que é fazer parte da turma de sustentação. Isso é outra história que se aprende quando você estiver lá.
Fui tomar um cafezinho e quando voltei me sentei ao lado dos dois que ainda estavam conversando. E o conselheiro não parava de falar. Ouvi ainda o seguinte: cara, você foi fundo demais, esse tipo de tentativa de golpe, com esse papo de reverendo, de pebliscito já está manjado demais. Se você for mesmo lá pra Ilha, tente um cargo eletivo, comece a aparecer nas fotos, comece a instigar alguma coisa que você vai se dar muito bem por lá. E se tentarem alguma coisa contra mim, por exemplo - tentarem me prender por ter falado demais, por ter visto alguma coisa, por ter ouvido demais... Não se preocupe, disse o conselheiro. É só você dizer que não falou nada, não viu nada, não ouviu p. nenhuma e pronto. Mas, se forçarem uma barra e provarem tudo que eu estiver negando? Perguntou o companheiro. Aí você parte pra outra estratégia: simplesmente você diz que você não é você e pronto, papo encerrado.
O companheiro baixou a cabeça como se estivesse meio na dúvida, matutando... e partiu para nova indagação. Mas companheiro, me diga uma coisinha mais: e se o bicho pegar de verdade e eu não tiver outra saída? Isso aí também é mole, se o bicho estiver pegando entra a turma de choque. O que é que é isso? Perguntou o companheiro. É a rapaziada da salvação dos devedores - quando eles sentem que não tem saída, arranjam um cargo de ministro e você se torna imune, uma espécie de vacina muito usada la na Ilha. E o companheiro não parava de fazer perguntas. Posso te fazer mais uma? Perguntou o companheiro. Claro, fique à vontade. E quando acabar a minha imunidade por aqui? Logo veio a resposta: não tem problema se arranja um cargo de adido num país qualquer deste imenso planeta e te esquecem.
Quem sabe um dia quando você já estiver por lá, não vão achar que você é o cara?

NÃO FUI EU QUE ESCREVI ISTO AQUI.


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